«Censura!» diz ele!
O jornal " A BOLA ", de tradição democrática, foi acusado de censura por Rui Santos, jornalista há 26 anos e accionista da sociedade que gere este órgão.
Em solidariedade com Rui Santos, o ex-presidente do Conselho Fiscal do Benfica, João Carvalho, refere, por carta, que esta denúncia " é uma mancha e um desprestígio para o jornal ' A BOLA ' ", mas, para além disso, sugere claramente que " dentro do SLB existem poderes ' ocultos ' de censura, cujos longos braços se estenderiam às redacções dos jornais desportivos ".
Contactado pelo Independente, Vítor Serpa, director deste diário desportivo, afirma que " foi uma decisão do Conselho de Redacção « CR» ", remetendo mais explicações para o jornalista Martins Morim, que nos enviou o comunicado da reunião. Neste, o referido CR explica que a razão pela qual não foram publicados os artigos não foi por censura mas sim por falta de comunicação. Outro argumento apresentado respeita à " utilização de linguagem que atenta contra a linha editorial e estratégica do jornal e contra o direito ao bom - nome de pessoas e instituições [ ...]. Nesse sentido, o CR entende que não se pode falar de censura ".
Ao que o Independente apurou, o Sindicato dos Jornalistas ( SJ ) não aceitou a decisão do CR, deixando a questão em aberto por falta de elementos. O SJ defende os princípios e direitos dos jornalistas, e pretende lutar por eles. Alfredo Maia, presidente do sindicato, adianta que o caso foi remetido ao Gabinete Jurídico e ao Conselho Deontológico. São estes que, após ouvirem as partes interessadas, vão tomar a decisão final. Mas, até lá, o " lápis azul " continuará a riscar, pois fontes da redacção do jornal " A BOLA " comprovaram a não publicação, nesta semana, de outro artigo de Rui Santos, mais uma vez sobre o Benfica. Com este somam-se 10 artigos " censurados " desde Agosto de 2000.
Filipa Simas
RUI SANTOS
O Jornalista e accionista do jornal " A BOLA " não gostou de ver alguns dos seus artigos fora das páginas daquele diário desportivo sem qualquer explicação. E critica a actual gestão do clube da Luz. " O Benfica é dos benfiquistas "
O PODER NÃO TEM SEMPRE RAZÃO
Entrevista de Filipa Simas
Como se sente em relação à situação que vive no jornal " A BOLA "?
Neste momento, tenho poucos comentários a fazer. Sinto-me bem com a minha consciência, acredito nos valores mais nobres do jornalismo e da vida, acredito na herança que os fundadores e os jornalistas que foram meus professores me legaram. E acredito em mim.
Como justifica a não publicação dos seus artigos?
Interroguei-me sobre o país que somos, a sociedade que somos, o papel dos jornalistas, e pensei muito no amor que tenho ao jornal.
Tem conhecimento da carta escrita por João Carvalho?
Sim, pela comunicação social. É um sinal de que as coisas podem ser feitas num regime aberto. No caso dessa carta, foi escrita por iniciativa de uma pessoa que teve problemas dentro da instituição Benfica.
E como analisa a actualidade do Benfica?
É um grande clube que respeito imenso. É uma referência de Portugal. Mas o Benfica não se circunscreve nunca e apenas às pessoas que pontualmente são os responsáveis pelos seus órgãos sociais. O Benfica é dos benfiquistas.
E quanto à relação da comunicação social com os clubes?
Há uma coisa a fazer, no sentido no sentido de tornar essa relação completamente clara aos olhos do público. O meu compromisso é com os leitores. Nos meus 26 anos do jornalismo, os meus textos não foram dirigidos aos presidentes, nem a nenhum administrador de empresa, a lóbis poderosos, ligados ou não ao futebol. Da mesma maneira que os clubes têm as suas massas associativas - espero que não seja presunção -, tenho os meus leitores e é para eles que tento dar a minha opinião, de uma forma livre e equidistante. Percebo que é preciso lidar com eles, mas é também preciso marcar uma distância, para que os nossos leitores tenham a certeza absoluta de que nós tentamos fazer um exercício livre, responsável e de isenção.
Mas há sempre quem concorde e quem discorde.
Isso até é saudável. Mas quando eu dou opinião e assino por baixo, estou a fazê-lo de uma forma responsável. Sou jornalista desde os 15 anos e habituei-me a respeitar a diferença de opinião das pessoas. Fui castigado muitas vezes exactamente por defender os princípios mais nobres do meu jornal e do jornalismo em geral. Fui agredido e fui proibido de entrar nos estádios em nome da liberdade.
Este foi o primeiro problema que teve com a direcção?
Remeto este caso para o Sindicato dos Jornalistas, é lá que ele está a ser tratado. Nunca vendi a minha consciência a certos dirigentes que pensam poder comprar tudo. Mas sei que não é fácil ser independente, sobretudo num clima em que há uma pressão enorme por parte dos clubes e de alguns dirigentes sobre os jornais e os jornalistas. Isto também é um apelo, pois estamos a viver um momento mau, quer para o futebol, quer para a comunicação, no sentido em que muitas coisas se confundem.
A título de exemplo...
No Benfica tivemos um caso recente. As pessoas foram ao som da flauta como os ratos para um rio. Alguns seguiram o flautista de uma forma completamente cega, e viu-se o que aconteceu. Portanto, o poder não tem sempre razão.
João Carvalho escreve que os seus artigos que não foram publicados falavam " curiosamente " da gestão do Benfica.
Eu sinto que não é fácil manter, neste momento, uma posição de equidistância e de total liberdade relativamente a determinadas pessoas que arrastam o nome das instituições. Quanto à gestão do Benfica, tenho dito que, a partir de determinada altura, Luís Filipe Vieira começou por ganhar preponderância sobre Manuel Vilarinho, num processo que deixou muitos benfiquistas pelo caminho, um pouco à imagem daquilo que tinha acontecido com Vale e Azevedo. O presidente do Benfica desprezou contributos preciosos de homens como Luís Nazaré, Mário Negrão, Manuel Boto, João Carvalho, Bagão Félix, Silva Gomes, Luís Tadeu, Vasco Pinto Leite e Ribeiro e Castro. O futuro presidente da SAD do Benfica teve um comportamento inconveniente com o presidente da Assembleia Geral, criou uma clivagem entre os benfiquistas. Numa determinada altura, era preciso dar a Luís Filipe Vieira o benefício da dúvida, quanto à " equipa maravilha ". Qualquer pessoa que entenda de futebol sabe que uma equipa não se faz, instantaneamente, como um pudim flan: cria-se um grupo de jogadores de nacionalidades e hábitos diferentes e depois mistura-se tudo...
Então, que caminho deveria ser seguido?
No futebol, o factor tempo é
fundamental. Quando não há bases - como é o caso do futebol do Benfica - as
coisas funcionam mal. O passado é um passado de mudanças constantes:
treinadores atrás de treinadores, jogadores que entram e saem. Enquanto se
mantiver esta política, não há hipótese nenhuma. A " equipa maravilha
", três meses depois do slogan, já estava a precisar de reforços. Se
calhar não foi por acaso que o Enke decidiu não renovar o contrato. O
Mantorras valia qualquer coisa 20 milhões de contos. Neste momento, quanto é
que vale? O Simão lesionou-se, e isso acabou por ser uma sorte para o Benfica.
A certa altura, a equipa maravilha deu lugar à espinha dorsal do futuro campeão
europeu. Mas como, sem ir à Europa?
Estes discursos megalómanos e desfasados no tempo são poeira para os olhos das
pessoas... Estes discursos do senhor Luís Filipe Vieira não levam a lado
nenhum. E são estas fantasias que vão dando cabo do futebol português.
Como está o futebol português?
Custa muito dizer, se calhar o Benfica já não é do Benfica. Isto não se circunscreve apenas a este clube, pois temos outros em grandes dificuldades. O que acho terrível é que houve um conjunto de pessoas ligadas à comunicação social, algumas com responsabilidade, que durante anos alimentaram esta situação. Sustentaram esta ideia de um futebol extraordinário em Portugal, que é mentira. Essas pessoas mudaram agora de discurso: como diz o primeiro ministro, " está tudo de tanga ".
24 Maio 2002 jornal O Independente
http://semanal.expresso.pt/primeira/artigos/interior.asp?edicao=1543&id_artigo=ES60215
32 por cento do capital de «A Bola» à venda
OS HERDEIROS de alguns nomes históricos da fundação de «A Bola», que controlam 32,69% do capital da Sociedade Vicra Desportiva, SAA, (SVD), proprietária do jornal, mandataram o Banco Espírito Santo/Investment para colocar à venda essa participação. Maria Cândida Porto, sobrinha de Cândido de Oliveira, fundador do jornal, João Arga e Lima, neto de Vicente de Melo, outro fundador, António Guerreiro Nunes, antigo administrador da empresa, Rui Santos, jornalista de «A Bola» e herdeiro de Vítor Santos, Leonor Pinhão e Isabel Pinhão, herdeiras de Carlos Pinhão, e Alfredo Farinha, antigo jornalista, são os accionistas vendedores.
Com a transformação em Sociedade Anónima, em Dezembro de 2000, os accionistas minoritários viram-lhes negada a pretensão de fazer eleger um seu representante como terceiro administrador. A SVD detém «A Bola» e participações financeiras nas empresas subsidiárias Mário Silva Braga, Lda (que distribui jornais e revistas) e a ASF (empresa prestadora de serviços fotográficos e de vídeo) e participa ainda na Unipress-Centro Gráfico, Lda (empresa de artes gráficas).Mário Arga e Lima, que com Margarida Ribeiro dos Reis constituem os accionistas maioritários, disse ao EXPRESSO que se os minoritários insistirem em vender, «estamos numa posição compradora, desde que o preço seja razoável».
25 Maio 2002
http://semanal.expresso.pt/primeira/artigos/interior.asp?edicao=1542&id_artigo=ES59471
Jornalista contra censura em «A Bola»
O JORNALISTA Rui Santos, do quadro do «A Bola» desde 1981, acusa a direcção do jornal de censura, em carta enviada ao Sindicato dos Jornalistas, soube o EXPRESSO de fonte sindical. «Até há cerca de dois anos escrevi em liberdade. Hoje a censura está instalada», escreve o jornalista, que diz que a maior parte dos artigos censurados continham observações ao futebol ou à gestão do Benfica e, em particular, ao dirigente Luís Filipe Vieira.
18 Maio 2002